9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 22.5.13

1. GUERRA VERDE
2. O BRASIL DEVE GASTAR R$ 800 MILHES AQUI?

1. GUERRA VERDE
Pode parecer paradoxal, mas a indstria blica entrou numa corrida para proteger o meio ambiente, sem perder o objetivo de fabricar armas que matam pessoas
Juliana Tiraboschi

A dura realidade das guerras, que apenas no sculo XX mataram 200 milhes de pessoas, no impede que a indstria de armamentos busque tecnologias menos agressivas ao meio ambiente. As iniciativas mais recentes  que incluem bombas que produzem menos fumaa e minas terrestres biodegradveis (confira quadro)  podem soar paradoxais, mas mostram que nenhum setor da sociedade ou da economia pode ficar alheio  necessidade de preservao, mesmo que seu objetivo seja tirar vidas.

Entre as companhias que trabalham em projetos sustentveis est a British Aerospace (BAE), responsvel pela criao de um tanque de guerra hbrido, movido a diesel e eletricidade. Alm de consumir at 50% menos combustvel, o veculo, desenvolvido para o Exrcito dos Estados Unidos, pode gerar energia para carregar equipamentos eletrnicos e iluminar acampamentos.

Outro exemplo de guerra verde vem da empresa norueguesa Nammo, que criou balas sem chumbo. Pesquisas realizadas na Europa comprovaram que o metal txico vaza de projteis em campos de tiro e pode contaminar guas subterrneas. O Exrcito noruegus adotou a munio ecolgica, e a companhia diz ter prevenido a liberao de 1.200 toneladas de chumbo no meio ambiente. J que armas e munio so necessrias, elas devem ser desenvolvidas da forma mais ambientalmente correta possvel, diz Urban Oholm, diretor da Nammo.

O Exrcito brasileiro entrou na onda verde e estuda, em parceria com a Petrobras, o desenvolvimento de fibra de carbono a partir de resduos do refino de petrleo. A indstria aeroespacial depende desse material, pois ele  mais leve, diz o major Alexandre Taschetto, gerente do projeto carbono do Centro Tecnolgico do Exrcito (CTEx). Isso se traduz imediatamente em menor consumo de combustvel. Mas as aplicaes da fibra vo alm: cabos de ancoragem de plataformas de petrleo e at ps de torres de energia elica podem ser feitos com o material. A guerra verde no  s ecologicamente correta, mas tambm pode ser lucrativa.


2. O BRASIL DEVE GASTAR R$ 800 MILHES AQUI?
Esse  o preo para fazer parte do consrcio que ir erguer o maior telescpio do mundo. E o valor no garante que nossos pesquisadores tero os mesmos direitos que os estrangeiros
Juliana Tiraboschi

Entrar para a primeira diviso no clube dos lderes em avanos tecnolgicos  a meta de todo pas que no se contenta em ser apenas emergente. Para chegar l,  preciso planejamento, esforo, estudo e dinheiro, muito dinheiro. Exemplo disso  o preo que o Brasil est prestes a pagar por um ttulo de scio em um clube da elite cientfica global. Est em anlise na Cmara dos Deputados um acordo firmado em 2010 entre o ento ministro da Cincia e Tecnologia, Srgio Rezende, e o Observatrio Europeu do Sul (ESO), consrcio formado por 14 pases que operam telescpios de alta tecnologia. Se a parceria for aprovada, o Brasil ser o primeiro pas de fora da Europa a participar do projeto. O acordo prev que o Pas invista at R$ 800 milhes em dez anos, segundo o ESO. Esse dinheiro ser usado, principalmente, para financiar a construo do European Extremely Large Telescope (E-ELT). O ESO j construiu equipamentos como o Very Large Telescope (VLT) e o Alma, o maior complexo de antenas de radiotelescpio do mundo, ambos instalados no norte do Chile.

AJUDA - Investimento brasileiro  fundamental para o consrcio que ir construir o E-ELT (acima) e que  dono do projeto Alma (abaixo), o maior radiotelescpio do planeta

Tornar-se membro do ESO abre caminho para o uso dos telescpios e para que empresas brasileiras participem da construo de instrumentos do E-ELT. O Brasil tem muito a ganhar em conhecimento, acesso a tecnologia de ponta e formao de pessoal, diz Roberto Dias da Costa, chefe do Departamento de Astronomia da Universidade de So Paulo. Adriana Vlio, presidente da Sociedade Astronmica Brasileira e professora do Mackenzie, em So Paulo, tambm se entusiasma. Antes de 2010, os brasileiros s tinham acesso ao ESO se entrassem em projetos em colaborao com europeus, e agora j podem entrar como autores principais, diz. Segundo ela, o ESO recebeu 15 projetos brasileiros para o perodo de 1 de abril a 30 de setembro de 2013, com um ndice de sucesso de 25% para o VLT e de 50% para outros telescpios. Segundo a direo do ESO, essa taxa  igual  dos demais membros. O astrnomo Cssio Barbosa, da Universidade do Vale do Paraba (Univap), no compartilha do nimo de seus colegas. S os pesquisadores que j tinham parcerias com os europeus esto tendo projetos aprovados. Os cientistas mais jovens vo ter dificuldade de acesso, acredita. Mais peremptrio na defesa de que o Brasil salte fora do projeto  Joo Steiner, professor de astronomia na USP. Na opinio dele, o custo  absurdamente caro e no garante acesso aos equipamentos: Os brasileiros vo competir em desigualdade com os europeus, que so em maior nmero e mais qualificados. Estamos subsidiando a cincia europeia com dinheiro do nosso contribuinte. O pesquisador defende que o Brasil participe de consrcios mais baratos de outros telescpios, como o Giant Magellan Telescope (GMT), que ser construdo tambm no Chile, e o Thirty Meter Telescope (TMT), com instalao prevista no Hava.

ESPERA - Tim de Zeeuw, diretor do Observatrio Europeu, torce para que o Congresso ratifique o acordo

Enquanto os astrnomos debatem, o ESO aguarda. A fabricao do E-ELT s comear quando as contribuies chegarem a 90% do um bilho de euros (R$ 2,6 bilhes) necessrios para a obra. O Brasil  essencial para atingirmos esse objetivo, diz Tim de Zeeuw, diretor do ESO. Em matria de participao em consrcios astronmicos internacionais, o Brasil no tem bom histrico. Em 1997, o Pas assinou um acordo com os EUA para participar da Estao Espacial Internacional (ISS), laboratrio que fica na rbita da Terra, a cerca de 350 km da superfcie. A parceria previa acesso  base e o envio de um astronauta. Em troca, a Agncia Espacial Brasileira deveria fornecer instrumentos no valor de US$ 120 milhes. Depois de dez anos de muitas renegociaes, o Brasil acabou sendo deixado de lado sem ter enviado nem sequer um parafuso  ISS.

O Pas corre o risco de repetir o vexame com a ESO? Vai depender da vontade poltica do governo, diz o deputado Emanuel Fernandes, relator do projeto na Comisso de Relaes Exteriores e de Defesa Nacional, uma das quatro que analisaro o texto. Geopoliticamente  importante a associao com os europeus, mas ela vai deslocar recursos de outras reas, afirma Fernandes. No ano passado, todo o Programa Espacial Brasileiro gastou R$ 443 milhes. Isso  pouco mais da metade que o governo gastar s no projeto do telescpio, de acordo com a previso do ESO. Vale a pena investir isso para o Brasil ser scio de um clube de ponta na pesquisa cientfica? Com a palavra, deputados e senadores.

